Viagem reuniu 19 moradores e 19 profissionais de saúde em um dia de sol,
inclusão e liberdade em Bertioga
A chuva marcou a saída do distrito de Sousas, às cinco horas da manhã. Acompanhou o ônibus estrada afora, no trânsito intenso da capital, na descida da serra, por todo o trajeto. Na chegada, o sol deu as boas-vindas e seguiu firme naquela quarta-feira em Bertioga, na Baixada Santista. Era 29 de outubro de 2025, o dia em que 19 moradores do Serviço Residencial Terapêutico do Cândido encontraram o mar.
Era um sonho antigo, anunciado em conversas e desejos partilhados na rotina das moradias. Não se sabia ao certo quantos teriam a primeira experiência diante da imensidão de água, sal e areia. Por histórias de vida fragmentadas, a gestora do SRT Leste, Leida Chagas, só arrisca dizer que, na juventude, uma das senhoras morou em Santos e um dos homens, no Rio de Janeiro.
O fato é que todos passaram por longos períodos de internação psiquiátrica, nos tempos em que essa era a regra do sistema. Muitos vínculos sociais e familiares se perderam pelo caminho. Com a Reforma Psiquiátrica e a implantação do cuidado em liberdade, foram acolhidos pelo Cândido Ferreira e hoje vivem em lares de verdade.
As cinco moradias do SRT Leste que ficam em Sousas são do tipo II — de alta complexidade —, voltadas a pessoas com pouca ou nenhuma autonomia, que precisam de acompanhamento intenso em função do envelhecimento, de comorbidades clínicas e dos efeitos de antigos tratamentos.
Entre as pessoas que foram a Bertioga, havia casos de mobilidade reduzida, dificuldades de compreensão, baixa visão e outras condições. Nada, porém, impediu o sucesso do passeio. Para garantir o cuidado, uma equipe do Cândido acompanhou o grupo. A proporção era de um profissional para cada morador — cinco deles cadeirantes —, e o dia seguiu feliz.
“Foi lindo, emocionante!”
A frase é da enfermeira Maria Cecília Pires da Rocha, que integrou e ajudou a organizar a viagem. Ela relata que todos se divertiram, tomaram sol, comeram frutos do mar e petiscos: “Alguns relembraram histórias, e ninguém demonstrou tristeza ou cansaço. Um deles, de uns 58 anos, entrou na água tão naturalmente, como se tivesse sido criado no mar. Para outros, foi a primeira vez”.
De acordo com ela, a quebra da rotina não trouxe agitação, reclamações, ou qualquer sinal de desconforto: “Foi um dia tranquilo, de alegria e harmonia. Nenhuma resistência — apenas emoção e encantamento diante do mar”, resume.
O passeio começou a se desenhar quando a equipe do SRT, sensibilizada com o sonho dos moradores, escreveu uma carta ao SESC Bertioga, solicitando apoio. A gestora Leida encaminhou o pedido, que foi prontamente atendido.
O conhecido complexo de lazer, cultura e turismo social do litoral paulista forneceu as entradas e toda a estrutura necessária para o conforto, o bem-estar e a segurança dos visitantes: equipe de apoio à mobilidade reduzida, cadeiras de rodas adaptadas para o mar e transporte interno de ônibus, equipado com elevador.
A chuva voltou no final do dia e acompanhou o grupo também no retorno. As quatro horas de estrada geraram certa apreensão na equipe de profissionais, tanto na ida quanto na volta. Nesses momentos, foi a serenidade dos demais viajantes que mais impressionou a enfermeira.
“Acho que esse é o resultado de terem passado tanto tempo trancados. Hoje, eles lidam melhor com as adversidades do que a gente. É uma lição de resiliência que levamos conosco”, conclui, encantada com o poder transformador do cuidado em liberdade.
Texto: Lenir Brizzi – Assessoria de Comunicação
Fotos: equipe SRT Leste
Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira
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Lenir Brizzi, jornalista | E-mail: lenirbrizzi@candido.org.br