Força do encontro e da expressão coletiva: entenda o samba-enredo do bloco
Neste sábado, 7 de fevereiro, o bloco Unidos do Candinho levará para as ruas do distrito de Sousas o clima de arrepiar que tem tomado conta da bateria. No último ensaio, realizado nesta sexta-feira, a emoção era ainda mais visível – no canto, nos abraços e no samba-enredo que dá o tom do Carnaval 2026: “Meu luto é lutar”.
À primeira vista, o nome pode soar estranho para uma festa que celebra a alegria. Mas basta ouvir o samba, acompanhar os ensaios ou conhecer a história por trás da letra para entender que ele traduz, com sensibilidade, um movimento profundo de transformação: fazer da dor um gesto coletivo, da perda um encontro e da luta uma expressão de vida.
O samba-enredo é de autoria do psicólogo e músico Clauber Reis, trabalhador do CAPS Esperança, e nasceu em um ano marcado por atravessamentos pessoais e profissionais. Em 2025, Clauber perdeu a mãe, após uma longa batalha contra um câncer, vivida no mesmo período em que o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira passava por intensas negociações com a Prefeitura de Campinas para a renovação do convênio de prestação de serviços em saúde mental, em meio à possibilidade de mudanças na gestão de parte da rede.
Durante esse período, trabalhadores compartilharam muitas incertezas sobre o futuro profissional e sobre os destinos de serviços que se tornaram referência no cuidado em saúde mental. A greve, assim como passeatas e manifestações organizadas pelos próprios trabalhadores, marcou o debate público, com atos realizados na Câmara Municipal e em frente à Prefeitura de Campinas.
Depois de meses de negociação, o convênio foi firmado, prevendo mudanças importantes. A gestão de uma das equipes do Consultório na Rua e dos cinco Centros de Convivência — até então sob responsabilidade do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira — passou para a Prefeitura de Campinas, que já operava outros serviços da rede. O novo acordo estabelece ainda, para os próximos meses, a redução de vagas no Núcleo de Oficinas Terapêuticas (NOT), o que resultará no fechamento da Casa das Oficinas, no Jardim Novo Campos Elíseos.
É desse entrelaçamento entre o pessoal e o coletivo que nasce o samba. “Meu luto é lutar” não é um slogan nem uma palavra de ordem institucional. É uma elaboração artística e afetiva, que busca dar forma à dor sem paralisar a vida — transformando a tristeza em movimento, expressão e encontro.
“A nossa forma de lutar é cantando, é com alegria”, explica Clauber. “Mesmo sentindo a perda, a gente segue. Transformar a tristeza em arte é uma maneira de continuar.”
A introdução do samba-enredo dialoga com referências da cultura brasileira, do cinema à música popular, reafirmando permanência, memória e afeto. Fala de perdas, mas também de resistência e presença. Como diz a letra, “a luta dá sentido pro luto”.
Essa dimensão do encontro é destacada por Marcelo Pinta, mestre da bateria e um dos fundadores do Unidos do Candinho, que se emocionou durante o ensaio.
“Talvez a coisa mais importante de tudo isso seja o encontro das pessoas. A gente se reunir, tocar, festejar e celebrar, mesmo em meio à dor. Nosso trabalho é para os usuários, para a comunidade. Isso que a gente vive aqui é precioso: estar junto.”
O bloco Unidos do Candinho é uma iniciativa construída por trabalhadores, usuários e apoiadores dos serviços de saúde mental. O Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira não interfere nem exerce controle sobre o conteúdo do Carnaval, reconhecendo o desfile como um espaço legítimo de expressão cultural e coletiva, ao mesmo tempo em que preserva sua relação institucional com o poder público.
Neste Carnaval, o Candinho vai para as ruas de Sousas como sempre fez: com batuque, afeto, memória e alegria. Cantando a dor sem esconder, mas escolhendo transformá-la em encontro, presença e celebração.
Porque, no fim, como lembra o samba, lutar também pode ser cantar, dançar e seguir junto.
Serviço:
Desfile Unidos do Candinho
Data: 7 de fevereiro (sábado)
Concentração: 14 horas, em frente ao Casarão do Cândido (rua Helena Fabrini, s/n)
Saída: 15 horas
Percurso: até a Praça Beira Rio (centro de Sousas)